domingo, 15 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
...
Li recentemente um artigo que me chamou muito a atenção e que permaneceu na minha cabeça alguns dias. Era um paralelo entre o pensamento e obra de duas das minhas autoras prediletas: Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus.
A primeira dispensa maiores explicações porque é conhecida, é uma das maiores escritoras do mundo e teve seu talento reconhecido, embora também tenha sido muito criticada porque como sempre escreveu sobre questões existenciais, sentimentos, buscava respostas subjetivas, era chamada por muitos de alienada. Ora, com tantos problemas e ela ocupava-se escrevendo sobre questões interiores!
Eu pessoalmente reconheço nela um talento raro de traduzir sentimentos que muitas vezes não sabemos expressar, ou pelo menos não com tanta arte. Sua marca era as metáforas utilizadas, que, somadas ao seu jeito único de narrar resultavam textos de rara beleza.
O paralelo foi feito pelo fato de as duas autoras serem vozes femininas bastante representativas no sentido de expressarem de alguma forma um protesto.
Mas agora falemos de Carolina, por sua vez bem menos conhecida: Carolina conta sua vida através de seus livros em forma de diários que ela foi escrevendo ao longo da vida. Ela era negra e desprovida de qualquer conforto material, ou melhor, sejamos diretos, viveu em miséria extrema. Cursou até o segundo ano do ensino fundamental, mas narrou sua história através se seus livros de forma esplêndida e conseguiu dessa forma fazer várias denúncias acerca do descaso, da indiferença, do desrespeito para com aqueles que sequer têm providas as necessidades básicas para um indivíduo viver de maneira saudável. Ela expressa isso de uma forma única, mas apesar disso foi barrada pela elite intelectual devido à baixa escolaridade e devido também e principalmente ao conteúdo de seus livros. Seus protestos se ouvidos poderiam provocar alguma reação, talvez incentivar alguma providência da parte do Estado, de alguma forma fazer alguém se importar e fazer algo para sanar tamanho sofrimento. Esse sofrimento é o preço pago para que alguns tenham um bem estar a meu ver injustificável. Para uma meia dúzia de burgueses ter tanto luxo milhões estão pagando um alto preço que é a fome.
Nesse artigo falava que Carolina era uma escritora que não ter a regalia de sofrer com questões existenciais.
Agora acho que chego onde quero chegar: Sofrer por questões interiores, por não achar respostas para conflitos de ordem existenciais é sim uma regalia, e associo o aumento do número de pessoas com algum quadro depressivo ao aumento da qualidade de vida.
Ora, e como alguém com uma vida como a da Carolina, tendo que catar lixo para vender para conseguir alimentar os três filhos vai agora parar para cultivar a dor de existir? Como ela vai pegar os poucos trocados que consegue juntar e deixar de comprar arroz e pão para ela e os filhos e comprar fluoxetina, rivotril e lexotan?
“Ah não, hoje não poderei trabalhar porque meu corpo só tem vontade de continuar na cama e estou sofrendo com tristeza extrema... meus filhos que esperem mais alguns dias para comer enquanto minha tristeza passa.”
Muito fácil para quem não tem que contar moedas ficar choramingando porque a vida está ruim. Porque dói algo não se sabe onde nem porque. Penso que pode até ser um certo remorso inconsciente por ter tanta gente vivendo de maneira desumana e a pessoa está bem, então ela tem que inventar um problema. Ou talvez porque a vida anda monótona, sei lá, um probleminha, mesmo que inventado talvez ajude...
Ah mas são questões físicas, a ciência já comprovou, alguns afirmam. Ótimo! Usemos então a tática de desviar o foco da dor: pega um infeliz desses que ta deprimidinho e bota pra lavar roupa na mão o dia inteiro, ou capinar, andar o dia inteiro no sol que aí a dor que ele vai sentir nas costas, nas pernas vai fazê-lo esquecer das aflições.
Certa vez na faculdade, numa determinada disciplina que não lembro agora qual foi, a professora passou um filme que mostrava duas realidades distintas: no primeiro víamos adolescentes em crise, “sofrendo” porque tinham que se dedicar muito aos estudos, porque nas suas escolas particular caríssimas conseguir atingir a média não era algo fácil e ainda tinham que conciliar o curso de inglês (...), fora que é difícil lidar com o fato de ter tanto dinheiro.
Depois mostrava adolescentes no interior do país, nos lugares mais pobres possíveis, sofrendo também, mas por outra razão: eles não tinham comida, nem sandálias, nem transporte para se locomoverem ate a escola, e tinham que ir a pé no sol.
Depois do filme a professora deu inicio à tortura, que ela chamou de debate. Tínhamos que falar sobre o que achamos da situação exposta no filme e pasmem: as pessoas acham que são dois tipos de sofrimento distintos, mas que não existe um que pode ser considerado mais grave. Os dois devem ser vistos com a mesma importância. A questão dos primeiros alunos (não sei como chamar essas questões) são tão dolorosas quanto a fome dos segundos e existem outras fomes tão graves quanto a fome de comida. A quem pensa assim, sugiro que tente passar cinco dias sem comer absolutamente nada a andando no sol.
Utopia tem limite, frescura principalmente.
A primeira dispensa maiores explicações porque é conhecida, é uma das maiores escritoras do mundo e teve seu talento reconhecido, embora também tenha sido muito criticada porque como sempre escreveu sobre questões existenciais, sentimentos, buscava respostas subjetivas, era chamada por muitos de alienada. Ora, com tantos problemas e ela ocupava-se escrevendo sobre questões interiores!
Eu pessoalmente reconheço nela um talento raro de traduzir sentimentos que muitas vezes não sabemos expressar, ou pelo menos não com tanta arte. Sua marca era as metáforas utilizadas, que, somadas ao seu jeito único de narrar resultavam textos de rara beleza.
O paralelo foi feito pelo fato de as duas autoras serem vozes femininas bastante representativas no sentido de expressarem de alguma forma um protesto.
Mas agora falemos de Carolina, por sua vez bem menos conhecida: Carolina conta sua vida através de seus livros em forma de diários que ela foi escrevendo ao longo da vida. Ela era negra e desprovida de qualquer conforto material, ou melhor, sejamos diretos, viveu em miséria extrema. Cursou até o segundo ano do ensino fundamental, mas narrou sua história através se seus livros de forma esplêndida e conseguiu dessa forma fazer várias denúncias acerca do descaso, da indiferença, do desrespeito para com aqueles que sequer têm providas as necessidades básicas para um indivíduo viver de maneira saudável. Ela expressa isso de uma forma única, mas apesar disso foi barrada pela elite intelectual devido à baixa escolaridade e devido também e principalmente ao conteúdo de seus livros. Seus protestos se ouvidos poderiam provocar alguma reação, talvez incentivar alguma providência da parte do Estado, de alguma forma fazer alguém se importar e fazer algo para sanar tamanho sofrimento. Esse sofrimento é o preço pago para que alguns tenham um bem estar a meu ver injustificável. Para uma meia dúzia de burgueses ter tanto luxo milhões estão pagando um alto preço que é a fome.
Nesse artigo falava que Carolina era uma escritora que não ter a regalia de sofrer com questões existenciais.
Agora acho que chego onde quero chegar: Sofrer por questões interiores, por não achar respostas para conflitos de ordem existenciais é sim uma regalia, e associo o aumento do número de pessoas com algum quadro depressivo ao aumento da qualidade de vida.
Ora, e como alguém com uma vida como a da Carolina, tendo que catar lixo para vender para conseguir alimentar os três filhos vai agora parar para cultivar a dor de existir? Como ela vai pegar os poucos trocados que consegue juntar e deixar de comprar arroz e pão para ela e os filhos e comprar fluoxetina, rivotril e lexotan?
“Ah não, hoje não poderei trabalhar porque meu corpo só tem vontade de continuar na cama e estou sofrendo com tristeza extrema... meus filhos que esperem mais alguns dias para comer enquanto minha tristeza passa.”
Muito fácil para quem não tem que contar moedas ficar choramingando porque a vida está ruim. Porque dói algo não se sabe onde nem porque. Penso que pode até ser um certo remorso inconsciente por ter tanta gente vivendo de maneira desumana e a pessoa está bem, então ela tem que inventar um problema. Ou talvez porque a vida anda monótona, sei lá, um probleminha, mesmo que inventado talvez ajude...
Ah mas são questões físicas, a ciência já comprovou, alguns afirmam. Ótimo! Usemos então a tática de desviar o foco da dor: pega um infeliz desses que ta deprimidinho e bota pra lavar roupa na mão o dia inteiro, ou capinar, andar o dia inteiro no sol que aí a dor que ele vai sentir nas costas, nas pernas vai fazê-lo esquecer das aflições.
Certa vez na faculdade, numa determinada disciplina que não lembro agora qual foi, a professora passou um filme que mostrava duas realidades distintas: no primeiro víamos adolescentes em crise, “sofrendo” porque tinham que se dedicar muito aos estudos, porque nas suas escolas particular caríssimas conseguir atingir a média não era algo fácil e ainda tinham que conciliar o curso de inglês (...), fora que é difícil lidar com o fato de ter tanto dinheiro.
Depois mostrava adolescentes no interior do país, nos lugares mais pobres possíveis, sofrendo também, mas por outra razão: eles não tinham comida, nem sandálias, nem transporte para se locomoverem ate a escola, e tinham que ir a pé no sol.
Depois do filme a professora deu inicio à tortura, que ela chamou de debate. Tínhamos que falar sobre o que achamos da situação exposta no filme e pasmem: as pessoas acham que são dois tipos de sofrimento distintos, mas que não existe um que pode ser considerado mais grave. Os dois devem ser vistos com a mesma importância. A questão dos primeiros alunos (não sei como chamar essas questões) são tão dolorosas quanto a fome dos segundos e existem outras fomes tão graves quanto a fome de comida. A quem pensa assim, sugiro que tente passar cinco dias sem comer absolutamente nada a andando no sol.
Utopia tem limite, frescura principalmente.
domingo, 18 de julho de 2010
Como já bem afirmou Spinosa, nenhum fato ou coisa por si só é bom ou ruim. Tudo é absolutamente neutro. Somos nós que, de acordo com nossa percepção, classificamos de alguma forma. É nossa necessidade de alguma coisa que torna essa coisa importante, que faz com que a encontremos.
Assim é com o amor. Buscamos alguém para dividir momentos, criamos essa necessidade de tal forma que surge esse tão esperado alguém. E olha que coisa fantástica: encontramos alguém que tem exatamente o perfil de que "precisávamos"! O perfil na verdade, somos nós quem idealizamos. Por isso a maior parte dos relacionamentos afetivos têm conflitos. Amamos pessoas não da forma que elas são, mas da forma que queríamos que elas fossem. Da forma que elas são, não tem como amar porque não há como descobrir. Ninguém se revela totalmente, e o pouco que fazem, normalmente já é o bastante para causar desastres nas relações.
As pessoas na sua forma pura assusta, e faz-se necessário fingir o tempo todo. Compactuar de opiniões, sonhos, experiências... Pôr a máscara de viver.
Assim é com o amor. Buscamos alguém para dividir momentos, criamos essa necessidade de tal forma que surge esse tão esperado alguém. E olha que coisa fantástica: encontramos alguém que tem exatamente o perfil de que "precisávamos"! O perfil na verdade, somos nós quem idealizamos. Por isso a maior parte dos relacionamentos afetivos têm conflitos. Amamos pessoas não da forma que elas são, mas da forma que queríamos que elas fossem. Da forma que elas são, não tem como amar porque não há como descobrir. Ninguém se revela totalmente, e o pouco que fazem, normalmente já é o bastante para causar desastres nas relações.
As pessoas na sua forma pura assusta, e faz-se necessário fingir o tempo todo. Compactuar de opiniões, sonhos, experiências... Pôr a máscara de viver.
sábado, 17 de julho de 2010
A metamorfose ou os insetos interiores ou o processo (O teatro mágico)
"Notas de um observador:
Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega-se de maestra-los.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, in(f)vertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores."
Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.
A futilidade encarrega-se de maestra-los.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.
Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, in(f)vertebrados.
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se
A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.
Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores."
sábado, 3 de julho de 2010
Hoje, ao assistir ao filme crianças invisíveis, que trata da questão da exploração sexual de crianças e adolescentes, durante a aula de fundamentos da educação ambiental, senti a inevitável comoção que provavelmente também tomou conta de meus colegas e que sempre vem ao assistir filmes do gênero.
Mas, o pior foi quando a professora anunciou: “Façam uma reflexão livre sobre o filme e tragam na próxima aula.
Ao ouvir isso senti uma sensação horrível. Eu faria uma reflexão sobre o quanto o fato é triste, como é injusto criancinhas sofrerem tanto, descaso político, descaso social, repugnância e sei lá mais o que.
A questão é que o fato de eu saber que eu, assim como o restante da turma faríamos uma reflexão com os mesmos lamentos (e o faremos ainda inúmeras vezes), causa-me mal estar. Falaríamos acerca da nossa impotência também... e mais uma série de pensamentos utópicos.
Não sei o que é mais incômodo: Fazer a reflexão, que lembra-nos o quanto somos pequenos diante do mundo, ou, para se livrar dessa difícil missão, ignorar, não pensar mais nisso e ir logo fazer outra coisa, talvez outro trabalho de outra disciplina. Mas agora já é tarde: já pensei, e pensar em não pensar não ameniza a angústia, ao contrário, só a piora.
Mas qual o sentido de discursar acerca da infância sofrida, da miséria, se hoje ao passar pela rodoviária, ao ver crianças nas mesmas condições que as vistas no filme, nada fiz? Como sempre segui meu caminho agindo como se o problema não fosse meu.
Não. Não dá para continuar escrevendo, nem pensando, nem evitando pensar acerca do assunto. Vou fumar um cigarro, depois dormir.
Mas, o pior foi quando a professora anunciou: “Façam uma reflexão livre sobre o filme e tragam na próxima aula.
Ao ouvir isso senti uma sensação horrível. Eu faria uma reflexão sobre o quanto o fato é triste, como é injusto criancinhas sofrerem tanto, descaso político, descaso social, repugnância e sei lá mais o que.
A questão é que o fato de eu saber que eu, assim como o restante da turma faríamos uma reflexão com os mesmos lamentos (e o faremos ainda inúmeras vezes), causa-me mal estar. Falaríamos acerca da nossa impotência também... e mais uma série de pensamentos utópicos.
Não sei o que é mais incômodo: Fazer a reflexão, que lembra-nos o quanto somos pequenos diante do mundo, ou, para se livrar dessa difícil missão, ignorar, não pensar mais nisso e ir logo fazer outra coisa, talvez outro trabalho de outra disciplina. Mas agora já é tarde: já pensei, e pensar em não pensar não ameniza a angústia, ao contrário, só a piora.
Mas qual o sentido de discursar acerca da infância sofrida, da miséria, se hoje ao passar pela rodoviária, ao ver crianças nas mesmas condições que as vistas no filme, nada fiz? Como sempre segui meu caminho agindo como se o problema não fosse meu.
Não. Não dá para continuar escrevendo, nem pensando, nem evitando pensar acerca do assunto. Vou fumar um cigarro, depois dormir.
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